Vera Colombo
«Por sorte, encontrava-me naquela idade em que ler é ainda uma paixão e, portanto – tirando um casamento feliz –, a melhor maneira possível de manter a solidão absoluta à distância. Mas eu era um leitor viciado e, para mais, espantosamente ecléctico, com uma atracção pela palavra escrita – quase por qualquer palavra escrita – que, de tão excitante, raiava o erótico.» William Styron, A Escolha de Sofia.
«Ao fundo do quarto, diante da cama, havia um toucador com um espelho levantado. Renouvier entreviu-se reflectido nele. Hélène soergueu-se então para lhe deixar um beijo na face. O espelho não mostrou o reflexo dela, mas o de Paulina – a amante das sextas-feiras.» Bernard Quiriny, Contos Carnívoros.

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Salvatore Giuliano
«Pombino»
Assim está registado na primeira página do pequeno caderno preto que encontrei em Agosto do ano passado no rebordo do colchão de praia do meu irmão nadador-salvador. Em vez de me demover, esta disposição acicatou-me a curiosidade e não descansei enquanto não decifrei o conteúdo de tão misterioso objecto.
Foi desta forma que tomei conhecimento da história de Salvatore Giuliano «Pombino», um siciliano com quem me enrolei na expectativa de perceber se seria o homem que todo o Inverno se plantou nas rochas em frente à minha casa.
Em má hora o fiz. Não só mantivemos uma relação curta e tumultuosa como, após a elucidativa leitura do caderno, reparei irritada na forma como se serviu da minha dedicação à literatura e ao sexo para me apelidar de ninfomaníaca literata. Na verdade sou um bocadinho compulsiva tanto num campo como no outro, mas nunca devoro mais do que três amantes e igual número de livros num mês. Lembro-me de, na altura, intercalar Scruton, Borges e Nabokov com o distribuidor de pizzas, o ex-namorado metaleiro e o próprio Salvatore. Esta falta de exclusividade mexeu-lhe com o ego e com a performance e resultou em incontáveis reclamações e exigências de parte a parte. Farta da ansiedade gerada pela situação, dispensei-o com o meu mais vigoroso arrivederci e depressa o substituí por um exemplar moreno, bons dentes, poucas falas e muita acção, que acompanhei com a releitura de Bioy Casares e a certeza de que o homem das rochas não passa de uma projecção de Morel.
Desvendado o mistério, posso agora livrar-me do caderninho preto como me livro de todas as coisas inúteis: sem remorso e sem saudade.
Nobuyoshi Araki
«Muita gente me diz: destruíste a tua carreira quando rasgaste a foto do Papa. Mas eu defino o sucesso de forma diferente», diz ao The Guardian. «Rasguei-a porque sabia que tinha dinheiro suficiente para não ter de casar com um homem de pénis pequeno, de forma a pagar as contas. Não quero que nenhum homem me controle. Isso, para mim, é o sucesso». Sinéad O’Connor, Blitz, nº 70.
Pénis pequeno como um caracol ou como sinónimo de homem com h minúsculo? Aquele homem que manipula, anula, ignora, bate e depois compensa com o pacote casa, carro, viagem, cartão Gold. E que a mulher aceita, porque conforto supera dignidade, a solidão mete medo e é melhor ter um marido de merda do que não ter marido nenhum.
«A leitura, a mim, cansa-me tão pouco como a natação cansa o peixe ou o voo cansa o pássaro. Sinto por vezes que só comecei a existir verdadeiramente através da leitura e espero morrer com um livro na mão, como Segalen na floresta de Huelgoat.» Jacques Bonnet, Bibliotecas Cheias de Fantasmas.
Taryn Andreatta
«Um homem. Era por isso que ela suplicava. Um homem com qualquer coisa entre as pernas que a excitasse, que a fizesse contorcer-se em êxtase, que a fizesse agarrar naquela boceta cabeluda com ambas as mãos e esfregá-la com gozo, com arrogância, com orgulho, com uma sensação de ligação, uma sensação de vida. Era o único lugar onde ela sentia vida – ali em baixo, onde ela se agarrava com ambas as mãos.» Henry Miller, As Meninas de Paris.
Antes de me perder em Amesterdão, passei uma temporada alargada numa das nove ilhas dos Açores, onde me exilei num sossegado hotel com acesso privativo ao mar para mais facilmente me dedicar a dois dos meus passatempos preferidos: pescar com cana e fotografar o horizonte ao entardecer.
Numa casa a escassos metros desse calhau reservado, todos os dias avistava uma mulher pequenina e morena que, a coberto dos muros de pedra solta que circundavam o seu jardim, me vigiava de forma descarada, obsessiva até. Ignorei-a ostensivamente durante os meses de Inverno para acentuar o mistério da minha presença e só em Junho resolvi estabelecer contacto, deixando ao seu lado uma fotografia com uma frase a sugerir desejo: «Suis moi jusq’au bout de ma folie». Foi quanto bastou para me abrir as portas e as pernas. Depois de uma notável primeira trancada em cima de um tapete de padrão zebra, percebi que era uma ninfomaníaca literata com uma fixação por poesia. Obrigava-me a ouvi-la recitar fragmentos e mais fragmentos de poemas do seu livro preferido ao som dos quais fazia sexo selvagem comigo:
«Sintoniza os teus beijos nos meus lábios./Verás que de secos não arrependerás o deserto» começava, contornando-me os lábios com a língua gulosa; «Tenho uma flor à tua espera, uma ferida/nos sulcos do meu ventre» e empurrava-me a cabeça em direcção à vulva mais húmida de que tenho memória; «Queria (…) escutar os desejos que circulam no teu sangue/sempre que das massagens passamos à mordedura» e encharcava-me em óleo de baunilha que esfregava usando todas as saliências do seu pequeno corpo, enquanto me mordia e gritava ofegante «Não basta querer o esperma na boca/É preciso trazê-lo à boca,/cavar no corpo os regatos da vontade», para logo escorregar por mim abaixo e lamber cada partícula do meu pénis com a mesma devoção com que uma freira reza o terço; «Que esplendorosos animais nós somos/Pouco mais poderá ser dito com palavras e gestos/sobre o fogo de artifício que nos rebenta no sangue» e cavalgava-me num trote desenfreado que em poucos segundos descambava num orgástico galope; para finalizar com um «Se eu tomasse banho depois de fornicarmos,/julgarias o acto mais higiénico?». Então suspirava de satisfação e dispensava-me com um adeusinho breve sem sequer me deixar tomar duche.
Dia após dia, poema após poema, para esta mulher eu não passava de um mero boneco de pau, ou melhor, um boneco com um pau. Mesmo assim, senti-me tentado a permanecer com ela por um período superior ao habitualmente destinado às minhas aventuras, mas revelou-se demasiado descompensada e insaciável para o meu gosto. Todas as semanas me apresentava uma tabela em que assinalava dias, duração do acto e qualidade da performance, reclamando e exigindo mais, cada vez mais. Magro, esfalfado, seco de sémen e de paciência, abandonei a ilha à socapa, antes de ser acusado de incumprimento do dever. Tenciono lá voltar em Outubro, para tentar a minha sorte como vendedor de bíblias. Talvez a leitura dos evangelhos me proporcione uma entrada mais suave no paraíso.
Nan Goldin
«Passado algum tempo, porém, aquele ódio mútuo voltou a esconder-se por trás da paixão, ou seja, da sensualidade, e eu ainda me consolava com a ideia de que era possível emendar aqueles dois erros. Mas veio a terceira discussão, e a quarta, e então percebi que não era uma casualidade, que tinha de ser assim mesmo, que seria sempre assim, e aterrorizei-me com o que me reservava o futuro. Ao mesmo tempo afligia-me a ideia de que eu era o único homem a viver assim tão mal, diferentemente do que esperava antes, enquanto com os outros casais isso não acontecia. Ainda não sabia que era aquele o destino de todos, e que todos, tal como eu, pensavam que era sua sina exclusiva e escondiam a sua desgraça exclusiva e vergonhosa não só dos outros mas também de si próprios.» Lev Tolstói, A Sonata a Kreutzer.
Photographer Hal
«O casamento é uma espécie de caça tácita em casais. O mundo todo em casais, cada casal na sua casinha, a tomar conta dos seus pequenos interesses e oprimidos na sua privacidadezinha – é a coisa mais repugnante do mundo.» Susan Sontag, Renascer.
«I’m 60 years old,
Have a BA in Cultural Anthropology
From ColumbiaUniversity,
And married for 25 years.
I have a son in this last years of college
Who lives at home.
He’s a 4.0 with a double major
In English Literature and Religion.
Men call me for a infinity of reasons.
Of course, they call to masturbate.
I call it “Executive Stress Relief”.
It’s not sex; it’s a cocktail
Of testosterone, fueled by
Addiction to pornography,
Loneliness, and the need
To hear a woman’s voice.
I make twice the money
I made in the corporate world.
I work from home, the money transfers
Into my bank account daily.
I’m Scheherazade:
If I don’t tell stories that fascinate the Pasha,
He will kill me in the morning.»
«A contract of mutual self-delusion exists between the caller and phone sex operator. The caller imagines he is speaking to his most secret fantasy - and whatever it might be - animal, vegetable or mineral, the operator wilingly plays the part.» Philip Toledano, Phone Sex.
As três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me bouleversam, me hipnotizam.
Oh, as três mulheres do sabonete Araxá às quatro horas da tarde!
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!
Que outros, não eu, a pedra cortem
Para brutais vos adorarem,
Ó brancaranas azedas,
Mulatas cor da lua vem saindo cor de prata
Ou celestes africanas:
Que eu vivo, padeço e morro só pelas três mulheres do sabonete Araxá!
São amigas, são irmãs, são amantes as três mulheres do sabonete Araxá?
São prostitutas, são declamadoras, são acrobatas?
São as três Marias?
Meu Deus, serão as três Marias?
A mais nua é doirada borboleta.
Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida, dava para beber e nunca mais telefonava.
Mas se a terceira morresse...Oh, então nunca mais a minha vida outrora teria sido um festim!
Se me perguntassem: Queres ser estrela? queres ser rei? queres uma ilha no Pacífico? um bangalô em Copacabana?
Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca.
Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá.
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!
Manuel Bandeira
Helmut Newton
«Tornámo-nos bons amigos naquele período; vivíamos enclausurados num pequeno espaço, líamos, fumávamos e bebíamos juntos. Agora, volvidos seis anos, cruzamo-nos como dois desconhecidos, sem ânimo para nos determos e apertarmos a mão. (…) Na vida, na realidade não fazemos mais do que cruzar-nos com as pessoas. Com umas conversamos cinco minutos, com outras andamos uma estação, com outras vivemos dois ou três anos, com outras coabitamos dez ou vinte. Mas no fundo não fazemos mais do que cruzar-nos (o tempo é irrelevante), cruzar-nos e sempre por acaso. E separamo-nos sempre.» Júlio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas.
No filme Relações Proibidas (Louis Malle, 1992), Jeremy Irons e Juliette Binoche vivem uma paixão frenética, obsessiva e avassaladora, cujo desenrolar os afunda numa espiral de tragédia e destruição com consequências funestas para todos. Ao turbilhão de emoções sucede-se, porém, o assombro de reconhecer no outro um estranho. «I saw her once more only. I saw her by accident; at an airport, changing planes. She didn’t see me. She was with Peter. She was holding a child. She was no different from anyone else.» Esta é a frase final do filme e esta é, também, a verdade da vida. O amor ou paixão que um dia sentimos (ou julgamos sentir) por alguém dilui-se no ar do tempo e, com o passar dos anos, aquele ser outrora indispensável à nossa sobrevivência transforma-se numa pessoa igual às outras. Os actos, os anseios, as palavras, as oportunidades, a tensão sexual, o desejo exacerbado, o ciúme, o sentimento de posse, o sofrimento…tudo perde a sua importância, tudo se transmuta em indiferença, tudo se apaga no remoinho dos dias.
Makoto Aida
«A senhora Isotta apercebeu-se então de como a mulher está sozinha, de como entre as suas semelhantes é rara (talvez despedaçada pelo pacto secreto com o homem) a bondade solidária e espontânea que previne os apelos e lhes associa um sinal de cumplicidade no momento da desgraça secreta que o homem não compreende. Nunca as mulheres a salvariam.» Italo Calvino, Os Amores Difíceis.
Quando se cozem lagostas não é necessário colocar tampa na panela, se estas forem do género feminino, ao contrário do que acontece com o género masculino. Os machos, assim que sentem a água em ebulição, cruzam as pinças de forma a treparem pela panela e, assim, pelos menos alguns, conseguirem escapar. Por seu turno, as fêmeas empurram-se umas às outras para baixo, elidindo qualquer hipótese de fuga e fazendo com que morram todas. O comportamento das lagostas é paradigmático do das mulheres em geral: ao invés de se unirem, preferem calcar, hostilizar e aniquilar as suas congéneres, só para experimentarem, mesmo que por escassos segundos, o inebriante sabor do poder.
« – Vocês, os homens! Seus porcos, indecentes! Vocês são todos os mesmos, todos! Porcos! Porcos!» W. Somerset Maugham, Chuva e Outras Novelas.
Adoro porcos, desde que não tenha de partilhar a pocilga com eles.
O que é do mar se os rios se recusam?
Stig Dagerman
Sintoniza os teus beijos nos meus lábios.
Verás que de secos não arrependerás o deserto,
sintaxe duvidosa das paixões.
Verás que trago à boca a sede dos limites,
linguagens novas,
porém velhas contradições.
Verás que, se beijares os meus lábios,
terás na tua boca a boca de um incêndio,
um mar a transbordar de rios.
Não precisas de pintar o teu melhor vestido
nem de vestir o teu melhor carmim.
Basta que sejas o dentro e o fora
de uma tarde acabada de Outono,
debaixo da asa do vento,
lutando contra as mandíbulas fervorosas do tempo.
Henrique Manuel Bento Fialho
(A Dança das Feridas)
Em Outubro de 2011 fiz um desvio à rota habitual e mudei-me para Amesterdão, onde conheci, num bar de strip em Oudezijds Achterburgwal uma barmaid quase em fim de validade, a quem fiz algumas perguntas de circunstância e dei meia-dúzia de gorjetas generosas, porque me servia uns belíssimos Bloody Marys. Foi quanto bastou para esta religiosa portuguesa em delírios de recém-adquirida liberdade desenvolver uma extenuante fixação por mim, traduzida por olhares melados e requebros de anca, apesar de lhe ter dito que seguia naquela cidade a pista de uma enigmática mulher. Nada a demoveu e chegou ao cúmulo de pedir ao patrão para dançar uma única música para mim, facto terrivelmente confrangedor e deprimente, tanto pela falta de jeito como pelo corpo pouco viçoso que apresentava. Pensei ler-lhe algo radical, para a situar, mas tive pena dela e guardei para mim o parágrafo de Houellebecq que a sua insistência me suscitou: «As mulheres (…) Só têm para oferecer um corpo fraco, envelhecido; sabem-no bem e sofrem com isso. Mas nada as faz desistir, porque ainda querem ser amadas. E são vítimas dessa ilusão até ao fim. A partir de uma certa idade, uma mulher ainda tem possibilidade de se encostar a uma picha, mas nunca mais tem a possibilidade de ser amada.» Ao invés, dei-lhe uma trancada caridosa, despedi-me dela com dois beijos, depositei-lhe As Partículas Elementares nas mãos e saí porta fora, não sem antes me virar e dizer em voz dramática: « – Talvez o venha reclamar um dia… Quem sabe?» Depois sentei-me num coffee shop, fumei uma Silver Pearl de altíssima categoria e perdi-me num riso sórdido e redentor à medida que imaginava o efeito de tal livro numa mulher em primeira acelerada na auto-estrada para a meia-idade. «Velha imbecil. Quem ela julga que é para se apegar a mim?», disse em voz alta. Apaguei o charro, entreguei-me às delícias de um muffin com pepitas de chocolate, fui ao hotel trocar o fato pelo impermeável preto e apanhei de seguida o comboio que me levou a Schiphol e daí um avião para o mundo. (continua)
Passaram seis meses desde a noite em que descobri, preso ao rebordo do colchão de praia do meu irmão nadador-salvador, um pequeno caderno preto, preenchido com alguns desenhos de caveiras, três letras de Thom Yorke, uma playlist a sugerir romantismo e uma data de anotações desordenadas, escritas numa letra miudinha e em francês. Apesar de me ter equipado com uma lupa e um dicionário de boa qualidade, dispersei-me com outros afazeres e só agora consegui desvendar o mistério deste achado, pertença de Salvatore Giuliano «Pompino», conforme registado na primeira página do caderno:
«Tinha traçado o seguinte plano: esperá-la nas rochas; a mulher, ao chegar, encontrar-me-ia mergulhado na contemplação do poente; a surpresa, o provável medo, teriam tempo de se transformar em curiosidade; a comum devoção pela tarde actuaria favoravelmente; ela havia de me perguntar quem eu era; ficaríamos amigos…»
Ficaríamos amigos…com sorte amantes, atrevo-me a completar, lançando um olhar guloso à mulher sentada à minha frente, nas rochas, a quem leio passagens d’ A Invenção de Morel. Ela corresponde, mais seduzida pelas palavras de Bioy Casares do que por mim, aninhando-se no meu colo com a promessa de uma intimidade inesquecível, consumada logo ali, naquele instante. Não sabe ainda (como o poderia saber?) que nada lhe posso oferecer para lá da leitura de um ou outro parágrafo literário, algum riso e umas parcas horas de prazer, antes de partir rumo a outras paragens e outras experiências. Na verdade sou um homem angustiado, preso por laços ténues, mas doces, a um amor impossível. O meu destino é transitar pelo mundo, aproveitando o momento sem me fixar a nada nem a ninguém, excepto à ideia de encontrar a mulher que me roubou o coração e depois desapareceu. Nessa busca incessante e até agora infrutífera, passo largas temporadas em cidades costeiras ou em ilhas, porque ambos temos uma devoção sem igual pelo mar e pela pesca com cana. Como sou um homem prático, na bagagem transporto apenas uma muda de roupa e um impermeável preto, nas mãos uma máquina fotográfica e um livro, ao sabor do qual vou mudando de poiso e de companhia. Esta minha última opção não a tomei tanto por hedonismo como por generosidade para com o carente sexo feminino, por isso constato, sem surpresa, que há sempre mais do que uma mulher pronta a enrolar-se comigo. Embora prefira jovens de seios fartos e corpo viçoso é mais fácil obter resultados com trintonas em fim de década desesperadas por um macho procriador. Abeiro-me delas ao cair da tarde ou depois do escurecer, quando a melancolia lhes tolhe a alma e os movimentos, mostrando-me caloroso e atento aos seus anseios e socorrendo-me quase sempre das palavras dos outros para as cativar. (continua)
« – Eu… – pronunciou ele num grasnido irreconhecível. Olga virou-se e viu que aquilo era sério, reconheceu imediatamente aquele olhar cego, pânico, do homem que não pode mais de desejo, caminhou na sua direcção alguns passos, envolveu-o no seu corpo voluptuoso e beijou-o na boca.» Michel Houellebecq, O Mapa e o Território.
Não há palavras melosas, gestos ternos, bilhetes amorosos e raminhos de rosas que consigam bater o efeito de perceber no outro esse descontrolo. Bem disse Madame de Staël: «O desejo do homem é pela mulher, mas o desejo da mulher é pelo desejo do homem.»
Porque cada um é para o que nasce, não adianta investir em máscaras muito elaboradas para bombar no Carnaval. No meio de zorros, índios e cowboys, anjos e diabos, joaninhas e outros bichos, polícias e ladrões, piratas com e sem olho de vidro, toureiros e heróis de banda desenhada, padres lambareiros e colegiais angelicais, suponho que ninguém vá estranhar a presença de uma freira escandalosa e de uma cabra descascada na festa mais animada da cidade.
Katarina Smuraga
«I don't hate people, I just feel better when they aren’t around.» Charles Bukowski
Deitada nua na cama, Júlia sentiu-a chegar. Primeiro, foi um arrepio e um sopro gelado no pescoço, seguido de um roçagar e de um amontoado de sombras que, aos poucos, ganharam consistência, transformando-se em misteriosos rostos na penumbra. Mãos húmidas e viscosas envolveram-lhe a cabeça e o corpo, sobressaltando-lhe o coração e o sexo. Só depois apareceu ela, a mesma mulher alta de cabelo esbranquiçado cuidadosamente apartado e enrolado em banana que estivera de noite, no seu quarto, há alguns anos. Mais gasta, mais curvada, o passo mais lento. A voz, porém, continuava firme e insinuante.
– Vem. Vem comigo. Venho buscar-te.
Júlia ficou paralisada, as palavras presas num molhinho na garganta.
– Não te lembras de mim? Sou a Morte.
– Eu sei quem és, mas não quero ir. Deixa-me em paz.
– Lamento, o teu tempo acabou. Proporcionei-te cinco anos para além da conta. Agora basta.
– Não me leves ainda – suplicou Júlia. – Falta-me experimentar o amor.
A Morte gargalhou, irónica.
– E pensas encontrá-lo nesse idiota estirado aí ao teu lado nem tu sabes bem porquê?
Júlia suspirou. Ela tinha razão, mas aquele homem fora o melhor que conseguira encontrar para espantar o desejo e contornar a solidão.
– Dá-me umas horas, então – pediu, conformada.
– Tens até ao raiar do dia. Nem mais um segundo – determinou a Morte.
A madrugada já ameaçava, quando Júlia se entrelaçou no homem sem nome e lhe pediu em voz mendiga:
– Ama-me. Ama-me muito e depressa. Ama-me como se o mundo acabasse amanhã.
Ele repeliu o abraço e resmungou:
– Não me chateies, mulher. Não vês que estou a dormir?
Dennis Rito
«Há já alguns anos que mantinha o telemóvel sistematicamente desligado, ou quase: era uma questão de estatuto (…) Desta vez, o meu primeiro gesto, mal desci do avião, consistiu em ligar o telemóvel; fiquei surpreendido, e quase aterrado pela violência da decepção que se apoderou de mim quando me apercebi de que não tinha nenhuma mensagem de Ester.» Michel Houellebecq, A Possibilidade de Uma Ilha.
Charles Bukowski
Esta noite sonhei com um estranho jogo de futebol entre o galã de peúga branca do ginásio e o meu amigo distribuidor de pizzas. Descobri que, para além de todos os outros predicados, Ricardão é, também, um exímio finalizador. Marcou um golo de bola parada e um livre indirecto de cabeça nos noventa minutos da praxe e, ainda, uma espectacular grande penalidade no prolongamento.
«–Não me agrada não saber quem é suposto seres. Isso tem um efeito negativo em ambos – disse ela.
– A escolha é tua – respondeu ele.
– Não quero ter de escolher. Quero saber. Preciso muito de ter certezas. Preciso de saber que vais estar ao meu lado em todos os momentos. Trabalho com materiais moles o dia inteiro. Quando chego a casa, quero algo de sólido. Preciso de um rochedo, não de um camaleão.
Tinha o cabelo ruivo e um temperamento irascível. Ficava com os ânimos excitados tão facilmente que Treslove sempre tivera medo de se chegar a ela.
– Sou um rochedo – insistiu, a alguma distância. – Ficarei contigo até ao fim.
– Bem, pelo menos tens razão nisso – respondeu ela. – Isto é o fim. Vou-te deixar.» Howard Jacobson, A Questão Finkler.
Nem sempre as vontades são iguais e o mundo não acaba por isso. Acaba, apenas, o tempo que consentimos a alguém. Três, dois, um...
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Gregory Crewdson
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A casa onde às vezes regresso é tão distante da que deixei pela manhã no mundo a água tomou o lugar de tudo reúno baldes, estes vasos guardados mas chove sem parar há muitos anos
Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai uma viagem se deu entre as mãos e o furor uma viagem se deu: a noite abate-se fechada sobre o corpo
Tivesse ainda tempo e entregava-te o coração
José Tolentino Mendonça (A Que Distância Deixaste o Coração) |
« – Tens mais raparigas, não tens? – pergunta Mary depois do ato, fumando um charro. – Algumas – responde ele. – Muitas? – Algumas. – Fala-me de alguma delas – pede ela. – Não me ocorre nenhuma, de momento – responde ele. – Isso não te dá cabo da agenda? – Menos do que o trânsito na circular. Ela ri-se. – Como é que as atrais? – Normalmente, limito-me a pedir.» Jed Mercurio, Adúltero Americano.
Segundo consegui apurar na última reunião de condomínio de 2011, Roberto andou a bater à porta de várias mulheres do meu prédio, usando o livro sagrado como forma de captar rapidamente a sua atenção. A conversa inicial era sempre a mesma, apenas variava o evangelho e a história da sua vida, conforme a aparência de quem pretendia seduzir: – A Bíblia é um livro fabuloso. Muito doloroso de ler, mas fundamental para a compreensão da palavra de Deus e para a expiação de todos os pecados. Recomendo-o, é satisfação garantida ou o dinheiro de volta. Sorria e insistia em italiano macio: – Soddisfatti o rimborsati, capisce? A seguir desbobinava: S. Mateus e uma paixão não correspondida, no meu caso, S. Lucas e uma mãe dominadora, no outro lado do corredor, S. Marcos e uma adolescência problemática, no rés-do-chão, S. João e uma depressão sazonal, na vizinha de cima. Só esta última sucumbiu ao seu aparente desamparo e daí se explica ter ouvido uns sacolejos e uns gritos de Ah, meu Deus, Ah meu Deus na tarde que passei em casa com uma terrível dor de dentes. O meu ar cúmplice foi quanto bastou para lhe conseguir arrancar algumas intimidades sem grande interesse, à excepção de um único e delicioso detalhe: – Apercebi-me desde o início que o tipo era uma fraude. Mesmo assim, resolvi aproveitar o momento. Nunca tinha internacionalizado, sabes?, disse-me ao entrar para o elevador. Pelo ar enfadado, depreendi uma certa falta de vontade para repetir a experiência e fiquei satisfeita por ter dispensado Roberto e retomado o meu enrolanço com o distribuidor de pizzas. Nica descaradamente aqui e ali, fala mal e engana-se no troco. Mas é bem equipado e vai directo ao assunto.
«Jed pensava às vezes que devia contratar uma escort para aqueles serões de Natal, construir uma minificção, bastaria fazer um briefing à rapariga duas horas antes, o pai não tinha grande curiosidade pelos pormenores da vida dos outros, exactamente como os homens em geral. Nos países latinos a política pode satisfazer as necessidades de conversa dos machos de meia-idade ou mais velhos; nas classes inferiores é por vezes substituída pelo desporto. Nas pessoas muito influenciadas pelos valores anglo-saxónicos, o papel da política é sobretudo desempenhado pela economia e pelas finanças; a literatura pode servir de tema complementar.» Michel Houellebecq, O Mapa e o Território.
Enquanto eles se concentraram nas «mudanças e transformações» de Passos Coelho para 2012, nos cortes nas férias e feriados, no empate do Benfica e do Porto na liderança do campeonato e na eficácia do comprimido azul nas erecções senescentes do tio Jorge Fernando, elas detiveram-se na análise das toilettes umas das outras, nas calorias ingeridas, nas mamas de silicone da Catarina Furtado e nos atributos do novo namorado da prima Mitó. Ninguém falou de literatura.
«O sujeito cansa-se depressa do tipo de mulher de cabeça oca, como, por exemplo, Marilyn, que se esforça dolorosamente por parecer séria e bem informada, sem, no entanto, ser minimamente convincente. A atriz concebeu a ilusão de que detém estas duas características devido aos inúmeros homens que concordam com ela só para se meterem na sua cama, e o sujeito vê-se, amiúde, obrigado a abster-se de expressar a sua discordância porque se apercebe do quanto isso a entristece.» Jed Mercurio, Adúltero Americano.
Os homens fingem tudo para se meterem na cama de quem desejam. As mulheres fingem acreditar neles, quando lhes convém.
Dobra bem os versos por baixo do colchão,
Estica a pele até ao ponto de rasgar.
Depois areja os nervos, os músculos,
Tudo o que puderes fazer sair de dentro do corpo.
E com as palmas das mãos inscreve
a ansiedade que te escorre dos poros
neste espelho de cambraia quase invisível.
Tenho uma flor à tua espera, uma ferida
nos sulcos do meu ventre. Vem regá-la,
colhê-la, faz dela o arranjo da refeição
que agora termina e de novo começa.
Henrique Manuel Bento Fialho
(A Dança das Feridas)
Nikola Tamindzic
«Nesse instante, senti que tudo enegrecia dentro de mim. Tinha a faca na mão, e o cabo bateu com tanta força contra o prato, que o estalou. Levantei-me e, ao sair da sala, gritei: Pobre Joachim, pobre Joachim! Algumas horas mais tarde, regressei a casa. Pensava dizer-lhe que lamentava não ter conseguido controlar-me. A casa estava completamente às escuras. Acendi as luzes. Na mesa da cozinha encontrei um recado que dizia: “Sim. Ligo-te amanhã ou noutro dia. Lucy.” Foi assim que ela saiu da minha vida.» Kjell Askildsen, Uma Vasta e Deserta Paisagem.
Ele tomava café com açúcar. Ela não. Mas nunca se esquecia de levar para casa os pacotinhos que sobravam dos dois cafés escrupulosamente degustados de manhã, um, e depois do almoço, outro. Para poupar, dizia. Arrumava-os, muito certinhos, num frasco de vidro transparente, de onde ele os sacava, enquanto rosnava o seu desagrado por uma mania que não conseguia (nem queria) entender. – Porra! Não te custava nada comprar um quilo de açúcar. Qualquer dia, estes pacotinhos de merda acabam e eu saio de casa. Juro que saio de casa. Ela baixava a cabeça e não lhe respondia. Era seu marido. Amava-o. Não podia prescindir, porém, de poupar tostões em pormenores ridículos, para melhor gerir o orçamento da casa. Tudo custava uma exorbitância e só ela conhecia o preço da água, luz, telefone, TV Cabo, condomínio, Internet, pão, carne, peixe, arroz, fruta, legumes, ovos, leite, champô, pasta de dentes, gel de banho, desodorizante, papel higiénico, detergentes e centenas de outras coisas, suportadas e transportadas com afinco, escada acima, para lhe proporcionar uma vida relaxada. Para lhe permitir chegar a casa às seis da tarde, vestir o pijama, calçar os chinelos, sentar-se em frente à Sport TV, mamar cervejas, fumar cigarros, comer numa bandeja, coçar a saca e arrotar, arrotar muito. E usá-la para fazer sexo rápido e distraído, às vezes. Era seu marido. Amava-o. Amava-o, mas um dia entrou na cozinha e, num minuto, esvaziou o frasco de vidro transparente. Pacotinho a pacotinho.
Mona Kuhn
Hanna
Do you have a book?
Michael
Yes, I have.
I took one with me this morning.
Hanna
What is it?
Michael
The Odyssey, by Homer.
It’s my homework.
Hanna
We’re changing the order we do things.
Read to me first, kid.
Then we make love.
David Hare, based on the novel by Bernhard Schlink
«Perante Deus, decidiu não se deixar levar pela impossibilidade de fazer promessas relativamente a um amor duradouro, quando é evidente, para qualquer ser pensante, que é absurdo qualquer pessoa pretender garantir o seu estado de espírito a uma distância de vinte ou até trinta anos. Aceitar os votos do matrimónio é apenas uma questão de etiqueta, tal como é fingirmos que os respeitamos.» Jed Mercurio, Adúltero Americano.
Ontem bateu-me à porta um vendedor de bíblias. – Ciao, mi chiamo Roberto, disse, os olhos brilhantes de entusiasmo, o livro sagrado suspenso na ponta de uns dedos particularmente apelativos. O italiano macio na boca bem desenhada daquele exemplar moreno e cheiroso completou a desgraça e dei por mim a ouvir passagens do Evangelho segundo S. Mateus, enquanto lhe servia um café. Daí a trocarmos informações pessoais foi um passo e ele em breve me confessou uma paixão não correspondida por uma famosa actriz portuguesa, pela qual tinha abandonado mulher e três filhos em Milão. Tanto desamparo fez-me pena e acariciei-lhe o rosto com meiguice, após o que nos atracámos com fervor. A meio de um longo e saboroso beijo, ele respirou fundo e falou numa condição fundamental para nos relacionarmos mais intimamente. Pensei que me fosse propor um banho de imersão, quiçá alguma perversão sexual, mas limitou-se a sussurrar-me ao ouvido que não nos podíamos apaixonar um pelo outro. Este contrato de acasalamento, tão duvidoso e ridículo como os votos matrimoniais de Roberto, fez-me perder a pica e logo o despedi com um apressadíssimo arrivederci. E senti saudades do homem que se costumava sentar nas rochas em frente à minha casa, entretanto emigrado para o estuário do Rio de la Plata, do Tejo ou do Hudson, onde observa a junção das águas e, tenho a certeza, se recorda de mim.
– A vida artística não compensa, avisou-me madre Isaltina, quando soube da minha intenção de trocar o hábito por roupas mais arejadas e coloridas. Entusiasmada pela perspectiva de um mundo totalmente novo, não lhe dei ouvidos e embarquei numa aventura num clube de strip, onde, por uma perversidade do destino, desenvolvi uma certa fixação por um homem moreno e cheiroso habitué às terças e quintas. – Sigo, em Amesterdão, a pista de uma mulher, disse-me ele, demasiado tarde para mim. – Uma mulher tão enigmática e inatingível que, em delírios nocturnos, eu próprio me questiono se ela de facto existe.
Tal informação não me demoveu e resolvi brindá-lo com uma performance estrondosa, mas nem assim consegui captar a sua atenção. Pelo contrário, depois dessa noite decidiu nunca mais aparecer, não sem antes se ter despedido de mim com dois beijos no rosto, deixando-me no nariz um aroma a sândalo e nas mãos um estranho romance sobre dois irmãos estropiados emocionalmente, um dos quais, masturbador compulsivo e autor de artigos impublicáveis para compensar a frustração de um pénis mini, «passava a maior parte do tempo da sua vida adulta a correr atrás de certas Lolitas de mamas grandes, rabo redondo e boca promissora». – Talvez o venha reclamar um dia… Quem sabe?, foram as palavras que me atirou, já à saída do bar, antes de desaparecer de vista.
Resignada com a minha sorte, dei uma festa de despedida, comprei uns utensílios extra na minha loja preferida e abandonei Amesterdão, retornando a contragosto ao meu convento à beira-mar plantado, para me dedicar à prosaica actividade de cultivar hortaliças e escutar confissões de outras freiras tão desmoralizadas como eu e de rapazes em trânsito para o calhau, onde esperam descobrir numa maré a solução para o seu mal de vivre.
E antevejo-me velhinha, o corpo seco recostado em muros de pedra negra, a memória colada às palavras de Tolentino:
Não devias empurrar fogo tão solitário
sob os umbrais de uma morada
nos carreiros que vão dar aos montes
sairás ainda em súplica
quando os incêndios ignorarem a ameaça
da tua vassoura de giestas
a sombra uma vez avulsa
não retorna a mesma
não despertes o que não podes calar
Sentiu uma picada no pé direito, olhou para baixo e viu-o vermelho, deformado. Deve ter sido um bicho qualquer, pensou, mas logo o mesmo aconteceu com o outro pé, e em breve uma ferida única, purulenta e dolorosa, alastrou pelas pernas e tronco, até beirar a zona do coração e dos pulmões, transtornando a respiração. Sinto a proximidade do fim, anunciou várias vezes em voz alta, mas à sua volta ninguém pareceu comover-se com tal afirmação, nem notar a sua agonia, os olhares concentrados na televisão e na vida dos vizinhos. Experimentou um curandeiro, tomou mezinhas diversas e, em desespero de causa, recorreu ao divino, rezando uma oração entretanto reaprendida. De nada serviu. Começou então a aparecer ao seu lado um rapaz loiro e bonito que se disponibilizou para ajudar. – Tens de partir, disse-lhe em voz agreste. – Basta saíres do teu reduzido espaço para as feridas cicatrizarem. Quando recuperares as forças, segue sempre em frente sem te importares com curvas, lombas e buracos na estrada. Não precisas de levar muita coisa, só os teus seis cães, alguns livros e uma arma, para te protegeres dos indesejáveis que vão tentar provocar a tua recaída. Resolveu fazer como o rapaz lhe dizia, atravessou mares e montanhas, cidades efervescentes e vilas pacatas, planícies de erva fresca e desertos (muitos desertos), sujou os pés de bosta e depressa os lavou na ribeira mais próxima, extasiou-se com dias de sol e desnorteou-se em tempestades sem fim, sentiu a boca seca de medo e de silêncio, embriagou-se com vinho e com riso, dançou músicas infinitas sob um céu carregado de nuvens, pisou tracejados e riscos contínuos, rebolou-se prazerosamente na lama, atirou a matar com ganas, desceu às profundezas da terra, e voltou para cima com a cabeça erguida pela certeza de se ter como única bússola. Vinte anos mais tarde, continua firme em direcção às árvores do fim do caminho. Um dos cães morreu, nasceram outros três e os livros continuam a dar-lhe guarida, mas suspeita da fiabilidade da bússola, a arma caiu numa ravina e já não avista Kurt Cobain.
Dá-me algo mais que silêncio ou doçura
Algo que tenhas e não saibas
Não quero dádivas raras
Dá-me uma pedra.
Não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz.
Dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
E se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!
Carlos Edmundo de Ory
(Poema mudado para português por Herberto Hélder)
Jonathan Leder
Desde que desisti de ser freira, trabalho como barmaid num clube de strip para os lados de Oudezijds Achterburgwal. Todas a terças e quintas senta-se na assistência um homem moreno, feições correctas e boca bem desenhada, o fato de bom corte a deixar adivinhar um corpo cuidado e cheiroso. Pede sempre o mesmo, um Bloody Mary com duas gotas extra de Tabasco, e raramente olha para o espectáculo, antes fica debruçado sobre a mesa, preenchendo com desenhos de caveiras e anotações numa caligrafia pequenina e desordenada páginas e páginas de um caderno. Esse homem atrai-me. É sempre simpático e educado, faz-me perguntas sobre mim e dá-me gorjetas generosas, ao contrário dos outros clientes. Por isso, ontem à noite, pedi ao meu patrão para me deixar dançar uma única música, na expectativa de captar a sua atenção. Apesar do corpo algo estragado por anos de vida conventual, lá me artilhei como pude e subi ao palco ao som de Dance with Me. Comecei devagar, colada ao varão para disfarçar o tremor nas pernas, mas cedo a timidez inicial descambou num inesperado despudor, as ancas libertas em movimentos circulares, as mãos traçando caminhos na pele arrepiada pelo desejo, os olhos plenos de possibilidades fixos no rosto dele. O homem nunca demonstrou grande interesse, embora possa jurar tê-lo visto arquear as sobrancelhas, quando ouviu as palavras «secret sins» e «against the law». Mesmo assim, continuei a dançar com afinco e, no fim, enchi-me de coragem e atirei a peça de roupa que faltava na sua direcção. Ele apertou-a com fervor, arrumou-a na algibeira esquerda do casaco, levantou-se, bateu palmas e gritou em voz comovida: – Bravo. Bravo. Portuguese do it better! E logo se sentou e continuou a escrevinhar na porcaria do caderno.
Jeremy Geddes
O padre Januário, a princípio tão respeitador, esticou-se na sua prática, marcando de forma indelével o meu delicado traseiro, o rapaz do calhau aparece e desaparece da minha rocha, conforme lhe dá na gana, deixando-me, apenas, entre uma e outra maré cheia, fotografias em poses comprometedoras, o senhor do caderninho preto, protagonista de uma história a muito custo decifrada e ainda não publicada, está confinado a uma masmorra de papel da qual me manda bombons de anis e bilhetes floreados, para disfarçar algo que já há muito percebi, e o ex-namorado metaleiro, ressuscitado por obra e graça de uma noite retumbante, convidou-me de rajada para conhecer o seu novo apartamento e dar uma volta de mota. Resumindo, dezenas de chicotadas, oito raminhos de flores, cinco conversetas de café, três caixas de chocolates, setenta e cinco e-mails, cinquenta sms, outras tantas músicas, poemas de amor e algumas esfoladelas depois, nenhum conseguiu adivinhar a única coisa que me faria feliz, e entro em Outubro com vontade de mandar todos bardamerda.
Come
As you are
As you were
As I want you to be
As a friend
As a friend
As an old enemy
Take your time
Hurry up
Choice is yours
Don´t be late
Take a rest
As a friend
As an old memoria
Memoria
Memoria
Memoria
Come
Dowsed in mud
Soaked in bleach
As I want you to be
As a trend
As a friend
As an old memoria
Memoria
Memoria
Memoria
And I swear
That I don’t have a gun
No I don’t have a gun
No I don´t have a gun
Memoria
Memoria
Memoria (don’t have a gun)
And I swear
That I don’t have a gun
No I don’t have a gun
No I don´t have a gun
No I don’t have a gun
No I don´t have a gun
Memoria
Memoria
Come As You Are lyrics by Kurt Cobain (Nirvana)
Robert Mapplethorpe
«Deixando-se ficar com ela [Isabel] sob a morna queda d’água, ensaboando-lhe a pele até que a sua seda flexível ficou coberta por uma gordura branca e a seguir deixando que ela o ensaboasse, Tristão sentiu que o seu caju se transformava numa banana e depois num inhame ondulado a estalar com o seu peso.» John Updike, Brasil.
Se acharem este post demasiado hardcore para as vossas almas sensíveis, mudem de página, mas dois frutos e um tubérculo para designar o órgão sexual masculino numa única frase é ao mesmo tempo tão eficaz e disparatado que não resisti a partilhar.
O homem que todas as tardes se planta nas rochas em frente à minha casa, entretanto promovido a «rapaz do calhau», não apareceu hoje pela primeira vez em onze meses. É possível que a sua ausência esteja relacionada com: a) o conteúdo do caderninho preto; b) a forte ondulação na costa sul da ilha; c) uma mudança imperceptível nas marés.
Fui muitíssimo bem recebida pela comunidade cristã de Amesterdão, em especial pelas irmãs da congregação De Wallen, incansáveis na árdua tarefa de percorrer comigo parques e canais, monumentos e museus, igrejas e outros locais propícios à oração e à prática do culto. A estada corria lindamente até o padre Januário aparecer e desestabilizar o ambiente. Primeiro, insistiu na inutilidade do hábito, obrigando-me a trocá-lo por roupas mais arejadas e coloridas; depois, levou-me ao cinema e deu-me a provar um bolo de chocolate que me fez ver Jesus Cristo e Maria Madalena em animado convívio; por fim, arrastou-me para série de actividades recreativas de cuja existência nem suspeitava, das quais destaco um espectáculo de dança de surpreendentes características. Apesar de alguma renitência inicial, fiquei fascinada com este novo mundo, percebi a minha verdadeira vocação e decidi deixar de ser freira. A partir de agora, tudo pode acontecer.
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