Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012
 
Bruce LaBruce

Em Outubro de 2011 fiz um desvio à rota habitual e mudei-me para Amesterdão, onde conheci, num bar de strip em Oudezijds Achterburgwal uma barmaid quase em fim de validade, a quem fiz algumas perguntas de circunstância e dei meia-dúzia de gorjetas generosas, porque me servia uns belíssimos Bloody Marys. Foi quanto bastou para esta religiosa portuguesa em delírios de recém-adquirida liberdade desenvolver uma extenuante fixação por mim, traduzida por olhares melados e requebros de anca, apesar de lhe ter dito que seguia naquela cidade a pista de uma enigmática mulher. Nada a demoveu e chegou ao cúmulo de pedir ao patrão para dançar uma única música para mim, facto terrivelmente confrangedor e deprimente, tanto pela falta de jeito como pelo corpo pouco viçoso que apresentava. Pensei ler-lhe algo radical, para a situar, mas tive pena dela e guardei para mim o parágrafo de Houellebecq que a sua insistência me suscitou: «As mulheres (…) Só têm para oferecer um corpo fraco, envelhecido; sabem-no bem e sofrem com isso. Mas nada as faz desistir, porque ainda querem ser amadas. E são vítimas dessa ilusão até ao fim. A partir de uma certa idade, uma mulher ainda tem possibilidade de se encostar a uma picha, mas nunca mais tem a possibilidade de ser amada.» Ao invés, dei-lhe uma trancada caridosa, despedi-me dela com dois beijos, depositei-lhe As Partículas Elementares nas mãos e saí porta fora, não sem antes me virar e dizer em voz dramática: « – Talvez o venha reclamar um dia… Quem sabe?» Depois sentei-me num coffee shop, fumei uma Silver Pearl de altíssima categoria e perdi-me num riso sórdido e redentor à medida que imaginava o efeito de tal livro numa mulher em primeira acelerada na auto-estrada para a meia-idade. «Velha imbecil. Quem ela julga que é para se apegar a mim?», disse em voz alta. Apaguei o charro, entreguei-me às delícias de um muffin com pepitas de chocolate, fui ao hotel trocar o fato pelo impermeável preto e apanhei de seguida o comboio que me levou a Schiphol e daí um avião para o mundo. (continua)



Maninha às 15:50 | | Partilhar

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